31/10/2026

Hack da Binance: se não for lá, onde guardar cripto?

Hackers ligados à Coreia do Norte tiraram US$ 6,3 bilhões da Binance em 20 minutos. O que se sabe do ataque, por que metade não deu pra congelar, e os prós e contras de cada lugar pra guardar cripto: corretora, Exodus, hardware wallet e ETF.

Hack da Binance: se não for lá, onde guardar cripto?

Na quinta (29) saiu a notícia do maior roubo de cripto da história: US$ 6,3 bilhões tirados da Binance em uns 20 minutos. Um amigo me mandou a pergunta que todo mundo com cripto em corretora fez naquela noite: "se não for na Binance, guardar onde?"

Respondi meio no automático. Cold wallet, ou na Binance mesmo, porque os caras têm grana pra cobrir. Brinquei que a Binance é mais confiável que o FGC, e mais líquida. Disse que o problema da cold wallet é que, se você perde, já era: é tipo um pendrive, tem que guardar num cofre. Citei a Exodus como meio-termo e lembrei que ficar transferindo também custa taxa.

E fechei com a frase que escuto desde 2017: nunca guarde suas criptos em corretora. Depois fui checar se o que eu disse se sustenta. Uma parte sim, outra precisa de ressalva. Este post é essa checagem, com as fontes no final.

O que aconteceu na quinta

Por volta das 17h de quinta (29), no horário de Brasília, começaram a sair saques não autorizados das carteiras da Binance em dez blockchains. A TRM Labs calcula US$ 6,36 bilhões, e a Chainalysis, US$ 6,4 bilhões. É mais de quatro vezes o recorde anterior, o hack de US$ 1,5 bilhão da Bybit em fevereiro de 2025.

A maior parte saiu por Ethereum (US$ 3,8 bilhões, entre ether e stablecoins) e Bitcoin (18.270 BTC, perto de US$ 1,5 bilhão). O resto foi por Tron, XRP Ledger, Solana, Avalanche, Polygon e algumas redes de segunda camada. O bitcoin caiu uns 5% e voltou para baixo dos US$ 80 mil.

A Binance é a maior corretora de cripto do mundo, com cerca de 323 milhões de usuários registrados, segundo ela mesma em julho. Os saques foram suspensos logo depois do ataque.

Como o dinheiro saiu em 20 minutos

A própria Binance disse que a porta de entrada foi o notebook de um engenheiro da empresa. De lá, os invasores chegaram aos sistemas internos e passaram a emitir saques que, para a infraestrutura, pareciam legítimos.

A TRM Labs diz que a explicação mais provável é o controle do sistema que assina os saques das hot wallets da corretora. No Ethereum o ataque usou autorizações assinadas (um recurso chamado EIP-7702) que deixaram a carteira da Binance rodar código do invasor; nas outras nove redes, foram transferências assinadas comuns. A Binance ainda não publicou a causa raiz completa.

O ponto que importa é este: ninguém precisou arrombar o cofre, porque os invasores usaram a máquina que dá ordens a ele. É o mesmo padrão do ataque à Bitget em 24 de setembro, que perdeu US$ 387,5 milhões. Lá, segundo a própria corretora, o invasor comprometeu um sistema interno da infraestrutura de carteiras e forjou transações. As cold wallets da Bitget não foram tocadas.

Foi justamente a Bitget que entregou o suspeito. Na blockchain, o dinheiro roubado das duas corretoras se misturou, e a Chainalysis e a TRM atribuíram o ataque ao TraderTraitor, grupo de hackers da Coreia do Norte. No sábado (31), o FBI confirmou a atribuição.

Segurança quase nunca quebra na parte difícil, e sim no acesso que alguém deixou aberto pelo caminho. Escrevi sobre a mesma lógica, em escala bem menor, no post sobre vibe coding e dados expostos.

Por que metade não deu pra congelar

"Mas cripto não é rastreável?" É, e dessa vez isso ajudou. Só que rastrear não é o mesmo que bloquear.

As stablecoins são emitidas por empresas, e elas têm um botão de congelamento. A Tether congelou cerca de 1,77 bilhão de USDT, e a Circle, uns 825 milhões de USDC. Somando Ripple e outros emissores, as estimativas ficam entre US$ 2,7 e 3 bilhões congelados.

Bitcoin e ether não têm botão nenhum, e os hackers sabiam disso. Segundo a Chainalysis, em uns 20 minutos eles trocaram US$ 325 milhões em stablecoins por ether e mandaram outros US$ 175 milhões adiante. O congelamento começou cerca de 54 minutos depois do primeiro saque. Até a análise da TRM, o invasor ainda tinha mais de 420 mil ETH e os 18.270 BTC, uns US$ 2,4 bilhões fora de alcance.

Em seguida vieram milhares de transações automáticas para embaralhar a trilha. A blockchain mostra o caminho inteiro, mas ninguém consegue parar o dinheiro enquanto ele anda.

Por que a Coreia do Norte rouba cripto

As sanções foram desenhadas para o sistema bancário, e Pyongyang achou um caixa fora dele. A Chainalysis estima que a Coreia do Norte tinha roubado US$ 6,75 bilhões em cripto até o fim de 2025, dos quais US$ 2 bilhões só naquele ano. Em 20 minutos, na quinta, levou quase o histórico inteiro.

Em 2023, Anne Neuberger, então vice-conselheira de segurança nacional da Casa Branca, estimou que metade do programa de mísseis norte-coreano é financiada por roubo de cripto e ataques cibernéticos. O próprio governo americano reconhece que é uma estimativa difícil de cravar.

O roubo é a parte fácil, porque Bitcoin não paga peça de míssil. A conversão para dinheiro costuma passar por corretores informais (OTC) na China, onde negociar cripto é proibido mas o balcão paralelo continua funcionando. Um relatório de 2025 da Equipe Multilateral de Monitoramento de Sanções, formada por 11 países, aponta bancos chineses e corretores OTC como peça central da lavagem norte-coreana.

Esse grupo de 11 países existe porque a ONU perdeu o seu. Em março de 2024, a Rússia vetou a renovação do painel de peritos que monitorava as sanções contra a Coreia do Norte, e ele foi encerrado em abril. O último relatório do painel dizia que 40% do programa de armas de destruição em massa do país era bancado por ataques cibernéticos. No mesmo ano, tropas norte-coreanas foram lutar ao lado da Rússia na Ucrânia.

E tem uma ironia: a Binance nasceu na China em 2017 e saiu de lá quando Pequim baniu as corretoras de cripto. O dinheiro que fugiu dela pode voltar para casa pelo balcão informal.

A Binance vai pagar. E daí?

Aqui minha resposta ao meu amigo se sustenta, pelo menos por enquanto. A Binance prometeu cobrir todas as perdas e separou cerca de US$ 6,34 bilhões em recursos próprios para isso. No sábado (31) disse que já tinha reposto 90% dos ativos, usando o SAFU (o fundo de proteção dos usuários), parte do fundo de seguro de futuros e o caixa da empresa. Prometeu reabrir os saques em fases a partir de domingo (1º) e recompor o SAFU para US$ 1 bilhão.

A parte da brincadeira com o FGC precisa de ressalva. O FGC é uma garantia legal, com regra escrita: cobre até R$ 250 mil por CPF por instituição, e não cobre cripto. O que a Binance fez foi uma decisão da empresa, que funcionou porque ela tinha o dinheiro. A FTX também era enorme em 2022, e os clientes ficaram anos esperando.

Ser grande o suficiente para cobrir o maior roubo da história é um sinal forte, mas é sinal de solvência, não garantia. E, mesmo com tudo coberto, quem precisava sacar na sexta ficou travado.

No Brasil, desde 2 de fevereiro de 2026, as resoluções 519, 520 e 521 do Banco Central regulam as corretoras de cripto. A 520 exige segregação patrimonial: o dinheiro do cliente fica separado do da empresa. Isso não impede um hack, mas muda a conversa sobre quem fica com o prejuízo numa quebra. Vale conferir se a sua corretora pediu autorização ao BC, já que o prazo para quem já operava terminou em 30 de outubro.

Cold, hot e hardware wallet

Na minha resposta eu falei "cold wallet e hard wallet" como se fossem a mesma coisa. São parentes, mas não iguais.

  • Hot wallet é uma carteira cuja chave privada fica num aparelho conectado à internet: um app no celular ou no computador. A Exodus, a MetaMask e a Trust Wallet são hot wallets.
  • Cold wallet é qualquer carteira cuja chave privada nunca encosta num aparelho online. É uma categoria, não um produto.
  • Hardware wallet é o jeito mais comum de ter uma cold wallet: um dispositivo dedicado (Ledger, Trezor e afins) que guarda a chave e assina as transações por dentro. O computador só recebe a transação já assinada.

As três têm uma coisa em comum: quem tem a chave é você, não a corretora. É o famoso "not your keys, not your coins". A chave vem na forma de uma frase de recuperação de 12 ou 24 palavras. Com essa frase, qualquer pessoa recupera a carteira em qualquer aparelho. Sem ela, nem você recupera.

Por isso a analogia do pendrive no cofre está certa, só que o que vai para o cofre é a frase, mais do que o aparelho. Se o hardware wallet quebrar, você compra outro e restaura com as 24 palavras. Se a frase sumir, o dinheiro some junto.

As opções, lado a lado

OndeQuem tem a chaveA favorContra
Corretora (Binance e afins)A corretora
  • Liquidez: compra e vende na hora
  • Recupera a senha se esquecer
  • Tem suporte
  • Risco da empresa: hack, quebra ou saque bloqueado
  • Seus dados de cadastro podem vazar
Hot wallet (Exodus, MetaMask)Você, num app
  • Grátis
  • Prática no dia a dia
  • Só você controla a chave
  • A chave mora num aparelho online
  • Malware, phishing e app falso levam tudo
Hardware wallet (Ledger, Trezor)Você, num dispositivo offline
  • A proteção mais forte contra ataque remoto
  • Se quebrar, restaura com a frase
  • Custa de uns US$ 80 a US$ 400, mais imposto de importação
  • Perdeu a frase, perdeu o dinheiro
ETF de cripto na B3O gestor do fundo
  • Regulado pela CVM
  • Compra pela corretora de ações, como qualquer ETF
  • Nenhuma chave para guardar
  • Você não tem a moeda, só a cota
  • Paga taxa de administração
  • Só negocia no horário do pregão

O ETF entrou na lista porque muita gente quer exposição a bitcoin, não guardar bitcoin. Se você nunca vai mandar a moeda para lugar nenhum, um fundo listado na B3 elimina o problema da custódia inteira.

A Exodus é segura?

Pelo que encontrei, sim, dentro do que uma hot wallet consegue ser. Os pontos a favor:

  1. Não custodial. A chave fica no seu aparelho, e a Exodus não tem como mexer no seu saldo.
  2. Sem histórico de invasão da carteira em si. As perdas relatadas por usuários vêm de aparelho infectado, phishing ou frase de recuperação vazada.
  3. Empresa estabelecida, com ações negociadas na bolsa americana e programa de recompensa por bug.
  4. Funciona com Trezor e Ledger, então dá pra usar o app como painel e deixar a chave num hardware wallet.

E os contra:

  1. Código só parcialmente aberto. As partes críticas não podem ser auditadas por qualquer um, e esse é o principal argumento dos críticos.
  2. Sem autenticação em dois fatores, só senha. Quem acessa o seu computador destravado acessa a carteira.
  3. App falso é o golpe mais comum: baixe só pelo site oficial.
  4. A segurança é a do seu aparelho. Se o computador estiver comprometido, a Exodus não salva.

Para guardar a longo prazo, ela é uma boa opção. Para um valor que você não aguentaria perder, eu usaria a Exodus com um hardware wallet conectado, ou só o hardware wallet.

E a taxa de ficar transferindo?

Cada saque da corretora cobra a taxa dela e a taxa da rede, e no Bitcoin a da rede muda conforme o congestionamento. Mandar R$ 200 toda semana para uma cold wallet pode comer uma fatia que não compensa.

O que resolve é juntar e mandar em lotes maiores, com menos frequência. E, antes de qualquer valor alto, uma transferência de teste pequena, conferindo o endereço e a rede. Mandar USDT pela rede errada é dinheiro perdido, e não tem suporte que devolva.

O hacker não é o único risco

Quem leva a custódia a sério precisa pensar também no risco físico. A CertiK contou 72 casos verificados de "wrench attack" em 2025, 75% a mais que em 2024: sequestro ou ameaça para forçar a vítima a transferir a cripto. O mais conhecido foi o do cofundador da Ledger, David Balland, sequestrado na França em janeiro de 2025.

Não sair contando que tem cripto vale tanto quanto qualquer hardware wallet. E a frase de recuperação nunca vai para foto, nuvem, e-mail ou gerenciador de senha: vai em papel ou numa placa de metal, num lugar que só você (e alguém de confiança, para o caso de faltar você) conhece.

O que eu faria

Não existe um lugar perfeito, e sim uma divisão por objetivo:

  1. Dinheiro de trade e do dia a dia fica numa corretora como a Binance ou a OKX. Além de ser onde o trade acontece, as duas têm cartão Mastercard no Brasil: o Binance Card gasta o saldo em cripto direto, e o cartão da OKX é de débito em dólar, pago com stablecoin. Dá pra usar no dia a dia sem ficar transferindo. Só deixe lá o que você usa, porque o hack mostrou que o saque pode travar por dias. E ligue 2FA por app ou passkey (nunca SMS), lista de endereços permitidos para saque e código antiphishing.
  2. Dinheiro de longo prazo, que você não vai mexer por anos, vai para um hardware wallet comprado direto do fabricante ou para uma hot wallet como a Exodus. Quanto maior o valor, mais o hardware wallet compensa, e dá pra usar os dois juntos.
  3. Se você só quer exposição, sem nunca transferir a moeda, um ETF na B3 resolve sem chave para guardar.

O conselho de 2017 continua valendo, só que mais refinado: o problema não é ter cripto em corretora, é deixar tudo lá por padrão.

Resumo

  • O hack da Binance não roubou o cofre: usou o sistema interno que assina os saques, a partir do notebook de um engenheiro.
  • Stablecoins podem ser congeladas; bitcoin e ether não. Por isso só metade dos US$ 6,3 bilhões ficou parada.
  • A Binance cobrir o prejuízo é sinal de solvência, não garantia. O FGC não cobre cripto.
  • Hot wallet é chave em aparelho online, cold wallet é chave offline, e o hardware wallet é o jeito mais comum de ter uma cold.
  • Divida por objetivo: trade e dia a dia na corretora (com o cartão), longo prazo no hardware wallet ou na Exodus, e a frase de recuperação longe de qualquer tela.

Referências

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